Entrevista a Alexandra Mendes Presidente da Associação Portuguesa de Enologia e Viticultura

Alexandre Mendes, 45 anos, bacharelato em Indústrias Agro-Alimentares e especialização em Vinhos, licenciatura em Engenharia Alimentar na Escola Superior de Agricultura de Santarém, tendo estagiado em 1995 em Bucelas, Em 1996 começou a trabalhar na região de Lisboa, na Adega Cooperativa de Dois Portos. Desde 2002 pratica consultoria em três regiões vitivinícolas – Lisboa, Tejo e Alentejo. Fazendo parte dos corpos sociais da APEV desde 2001, tornou-se, em Fevereiro do corrente ano Presidente da Associação.

 

– O que é a Associação Portuguesa de Enologia e Viticultura?

 É uma associação sem fins lucrativos, cujo principal objectivo é divulgar a enologia e viticultura e, de certa forma, agregar os profissionais do sector.

 

No ano em que completa 40 anos, a APE integra a vitivinicultura na sua denominação. Qual foi a razão para tal alteração e o que se pretende alcançar com a mesma?

 Julgávamos que não fazia sentido ser de outra forma, até porque os estatutos da associação já previam a viticultura. Havia, pois, a necessidade de dar a mesma notoriedade a ambas a actividades. E, no fundo, pretendíamos também incentivar quem está só a trabalhar em viticultura a sentir-se integrado. É uma decisão justa e que também nos aproxima mais da cultura anglo-saxónica, onde ambas não se dissociam e as associações que as representam integram-nas numa só.

 

– Pretendendo a associação divulgar o trabalho dos enólogos, e agora também dos viticultores,  portugueses, de que forma se pretende levar essa divulgação mais longe e a um público mais diferenciado?

 Inicialmente tínhamos, e desejamos continuar a ter, um carácter técnico científico, que não passa pela divulgação pessoal, mas essencialmente do trabalho de cada um. Primeiro, pretendemos também divulgar a nossa existência e o nosso trabalho, mas sempre num âmbito pedagógico e científico.

 

– No âmbito da função formativa e pedagógica da associação, que iniciativas e ações pretende desenvolver ao longo do seu mandato?

 Estamos a ultimar os mini-cursos de viticultura e enologia para especialistas e outros para pessoas sem especialidade mas que possuem imensa vontade de aprender sobre estas áreas, sobretudo para mercados estrangeiros que querem vir conhecer Portugal e querem saber mais, de forma profunda e segura, sobre viticultura e enologia. Procurámos um colaborador na área e agora estamos confiantes que vamos levar este objectivo a bom porto e haverá público interessado em frequentá-los. Simultaneamente, realizamos conferências, jornadas técnicas, palestras, provas específicas, tentando sempre promover e dar a conhecer o que há de novo nas nossas áreas.

Outra medida importante será a criação do Estatuto do Enólogo, enquanto instrumento de defesa do mesmo, um trabalho que já vem do passado e que pretende habilitar e reconhecer a profissão. É muito fácil qualquer pessoa que está ligado ao vinho intitular-se como e, isso, nem sempre é justo. A profissão esta legislada, pelo que, há que ser detentor de um determinado número de créditos para se possuir esse estatuto e, como tal, há que proteger aqueles que possuem a habilitação para o exercício da profissão.

 

– O vinho entrou definitivamente na moda e, actualmente, há uma cada vez maior curiosidade da sociedade em conhecer mais acerca do mesmo. O que acha que mudou no panorama vínico nacional para criar esta curiosidade?

 Mudou tudo! Mudou a cultura das pessoas, mudou todo o encepamento por força do apoio governamental ao sector, as próprias universidade apostaram na formação de técnicos, dando mais notoriedade ao sector. Não esquecer que se há 30 ou 40 anos quiséssemos ter formação académica na área da viticultura e enologia tínhamos que ir para França ou Austrália. E hoje já conseguimos ter essa formação em Portugal, por exemplo, Évora e Vila Real já possuem licenciaturas em enologia, há dois mestrados muito bons a ocorrer na área da enologia. A própria colaboração do Instituto Superior de Agronomia com a Faculdade de Ciências do Porto, a pós-graduação em enologia no Porto. Ou seja, já há uma panóplia de formação que sustenta o conhecimento.

 

Estamos no Berlin Wine Trophy, o maior Concurso Mundial de vinhos certificado pela OIV. Que vantagens vê para os seus associados em participar neste concurso e, por outro lado, de que forma motivaria os produtores nacionais a participar no mesmo, trazendo os seus vinhos a concurso?

Tal como disse, é um concurso grande, provavelmente o maior. Tem o patrocínio da OIV, da VinoFed e da União Internacional dos Enólogos. Logo aí dá toda uma credibilidade que passa pela aceitação de regras e critérios justos para o produtor, o que considero que será a maior mais valia para os produtores, que têm a garantia de uma avaliação, justa, correcta e que respeita todos os critérios. A importância também é relevante se tivermos em conta, agora falando do país, que se obtivermos bons resultados, será dos vinhos portugueses que se falará pelo mundo inteiro. Olhemos para os últimos 6 anos e para a notoriedade que os vinhos portugueses alcançaram. Isso é muito positivo e poderá também ajudar às exportações, conhecendo-se vários casos de sucesso por conta de grandes prémios em concursos reputados.