A delicadeza da “podridão nobre”

Decorrido bastante tempo após a vindima dita normal, regressa-se à vinha em finais de Novembro ou início de Dezembro para uma colheita tardia e especial. Por oposição à podridão cinzenta, busca-se a podridão nobre, resultante de um fungo conhecido como Botrytis Cinerea, que actua na película da uva, sobretudo em situações de elevada precipitação e humidade.

A história destes vinhos, ao contrário do que se julga, não nasceu em Sauternes mas na Hungria, na região de Tokaj-Hegyalja. Reza a história que, em meados do século XVII, estando a região prestes a ser ocupada pelo poderoso Império Otomano, foi decidido pelos locais atrasar a vindima, uma vez que os muçulmanos condenavam o consumo alcoólico. Com esta decisão, ocorreu a tragédia, sendo as uvas atacadas por um fungo cinzento terrível. De modo a salvar parte da colheita, os agricultores colheram a uva, separando as uvas sãs das más. Não terá ficado registo escrito, mas no final do processo fermentativo e de maceração os produtores terão adicionado as uvas afectadas pelo fungo. Volvido um ano o vinho terá sido provado e a história começava a ser escrita, o vinho era magnífico. Os micro-orifícios que o fungo causa na uva provocam a evaporação da água, concentrando os açúcares e as substâncias que conferem os aromas e sabores ao vinho. A colheita quase bago a bago cria um vinho com uma harmonia e equilíbrio perfeito entre a doçura e a acidez, a que se soma um aroma muito típico que é conferido pelo fungo.

Em Portugal surgem já várias referências de “Late Harvest”, mas não serão muitos os que aproveitam a uva botriitizada, sendo apenas vinhos doces criados a partir da uva passa.

O ANETO Late Harvest 2015 é um dos mais belos e genuínos exemplares dos Colheita Tardia de uva botritizada. Ao contrário de outras experiências nacionais, aqui usou-se 100% de uva Semillon, não apenas porque é com ela que se fazem os famosos vinhos de Sauternes, mas sobretudo porque tem uma especial apetência para desenvolver o fungo. Com vindima feita em Dezembro, a uva está profusamente infectada com o fungo. A fermentação é feita em inox a baixa temperatura e, posteriormente, tem um estágio de aproximadamente 18 meses em barricas de carvalho francês.
Com uma cor âmbar dourada, acalenta-nos a mente com uma miríade de aromas onde se destacam a avelã, a amêndoa, o alperce seco, mel, maple syrup. O seu grande trunfo surge na boca, com a acidez e a frescura que lhe temperam o pendor doce, tornando-o um vinho delicado, elegante, perfeito para um final de refeição a acompanhar, como foi o caso, um Morgado do Bussaco.

O PVP ronda os 15,00 €, em garrafa de 37,5 cl..