PAI ABEL – RETORNO ÀS ORIGENS

Pai Abel

O pretexto para o encontro era o lançamento da mais recente edição do “Pai Abel” Branco 2016, um dos icónicos vinhos da Quinta das Bágeiras, a empresa familiar sediada na Fogueira, Sangalhos, liderada desde o final dos anos 80 por Mário Sérgio Nuno. Contudo, numa casa onde se privilegia o apego à terra e o respeito pelas práticas ancestrais, cimentado pela inspiração familiar, fazia todo o sentido que o “rendez-vous” ocorresse na vinha donde, por entre a argila e o calcário, crescem as uvas que compõem este vinho.

É na Vinha do Barrio, localizada numa zona plana e baixa onde antes existia uma pedreira, de características marcadamente argilosas e calcárias, sem quaisquer problemas de stress hídrico, que se encontram as tão bairradinas Maria Gomes e Bical.

Foi num ambiente de plena informalidade, de pompa e circunstância rústica, que decorreu o desfilar de vinhos que contam o percurso das Bágeiras, tais como o tinto Garrafeira 95, vinho que alia a frescura à longevidade sem mácula, e o espumante Super Reserva Bruto Natural 2002, surpreendentemente complexo, a revelar em qualidade o efeito do tempo sobre ele. Houve também lugar aos mais jovens Quinta das Bágeiras Bruto Natural 2016, espumante cheio de vigor, enérgico e fresco, e o Pai Abel tinto 2011, em versão Magnum, aquele que é um dos grandes vinhos nacionais e mundiais, onde a terroir e genoma Bairrada se encontra plenamente vincado.

Criar vinho é respeitar a tradição, beber conhecimento nos ensinamentos dos anciãos e, sobretudo, respeitar a terra, esse bem tão escasso que, de forma miraculosa, enfrenta as dificuldades para, em comunhão com o homem, criar vinhos transcendentes.

Seria injusto dizer que “Pai Abel” é somente uma referência da Quinta das Bágeiras. Nos vinhos há, sobretudo, um estado de espírito de um vislumbre intimista. Olhar para Abel é, só por si, um ensinamento sobre a Bairrada. A forma como caminha e olha para o solo, ali barrento e escorregadio pela chuva dos últimos dias, a forma como toca as videiras e percebe o ritmo de crescimento da uva, como observa o céu, o movimento das nuvens, o sentido do vento, e profetiza a hora da chegada da chuva, é uma evidência que só a experiência dos seus 82 anos pode talhar com certezas. Há na sabedoria serena deste homem uma inspiração que deverá servir de modelo aos jovens, como o Frederico, a mais nova geração da Bágeiras, que iniciam o seu percurso na produção de vinhos de vinhas próprias.