Vindima 2018 – Estaremos perante um ano excepcional?

Se há cerca de um mês fizéssemos uma avaliação e prognóstico das vindimas do corrente ano, provavelmente esta edição teria como título, “O Ano de Todos os Males”.

O Inverno, rigoroso e seco, mostrou-se ideal para o estado de dormência da vinha. No entanto, assistimos também a uma estação atípica, marcada pela falta de pluviosidade, que se estendeu até à Primavera, colocando a quase totalidade do país em seca extrema. Entretanto, chegada a Primavera e quando a região devia ter ficado sob o efeito de um tempo mais ameno, inicia-se um período quase infindável de chuvas que consigo trouxe igualmente o mildio e a necessidade de tratamentos fito-sanitários infindáveis e onerosos. Num ano em que as doenças não deram quaisquer tréguas, aqueles que não procederam a intervenções cirúrgicas e atempadas, deitaram por terra qualquer chance de vir a ter uma vindima frutífera e radiosa. E, na verdade, houve quem tivesse perdido tudo este ano, sobretudo porque bastaram três dias em que as temperaturas chegaram a valores a rondar os 45 graus para destruir colheitas inteiras.

2018 será, com certeza, um ano em que houve perdas significativas e, algumas castas, tiveram perdas absolutamente catastróficas. No entanto, a mãe natureza e a auto-regulação e resistência das castas autóctones faz crer que será um ano de grandes surpresas. Daquilo que nos foi permitido observar, a Baga foi a uva que melhor soube fintar as agruras trazidas pelas várias maleitas e sobreviveu incólume até à maturação perfeita para vindima, fazendo adivinhar que, não só teremos um grande ano de espumantes, como podemos antever tintos de natureza excepcional.

 

Pedro Guilherme, Casa do Canto e Cave Central da Bairrada

Pedro Guilherme acumula  a enologia da Casa do Canto e Cave Central da Bairrada com a pequena produção de vinhos com chancela própria e vinhas em Ferreiros e Vale de Boi, povoações do concelho de Anadia. À data, o produtor e enólogo ainda não consegue quantificar as perdas, que terão sido significativas, mas mostrou-se muito confiante com a vindima das uvas tintas. Na Casa do Canto as vindimas de uvas tintas realizaram-se entre os dias 4 e 10 de Outubro e os resultados foram muito animadores, tendo as uvas chegado à adega em condições sanitárias e com um  teor de álcool provável de 14,5% na Baga, 14,8% na Syrah, 14,2% na Touriga Nacional e 14,8% na Merlot. A Cave Central da Bairrada, que teve até há bem pouco tempo a totalidade da sua produção vínica sustentada em uva comprada a agricultores, no corrente ano e após ter adquirido uma propriedade de 7 hectares, realizou uma vindima quase “simbólica”, em vinhas que quase não tiveram tratamentos em anos anteriores à aquisição e, daí ter perdas absolutamente volumosas. Contudo, a exígua produção também trouxe consigo boa qualidade das uvas sobreviventes, atingindo a Cabernet Sauvignon e a Merlot 14,5% de álcool provável, prevendo-se que, não obstante o caracter simbólico de primeira vindima, dali nascerá um vinho emblemático. Como micro-produtor de espumantes e tranquilos, Pedro Guilherme também sentiu na pele os desmandos de um ano complicado, mas o resultado final, não obstante as perdas que serão de 30%, apresenta-se de qualidade, com as uvas de Baga e Touriga Nacional a apresentarem maturações exemplares à data da vindima.

 

Quinta da Lagoa Velha

Em Vilarinho do Bairro, a azáfama da vindima da Quinta da Lagoa Velha começou no inicio de Setembro, com a colheita da uva a iniciar-se no dia 10. À semelhança do que se faz em várias casas da Bairrada, aqui a vindima para espumante marca a estreia e, foi a uva Chardonnay que irá compor o lote do Lagoa Velha, espumante, que deu inicio às hostilidades, com um teor alcoólico provável entre os 12,6% e os 13%. Numa casa que pretende apostar em espumantes de qualidade superior, a Pinot Noir também foi vindimada com elevado teor de acidez e baixo teor alcoólico, não querendo a líder desta casa, Carla Neto, ainda revelar que boas surpresas pretende vir trazer ao mercado.

Numa casa eclértica, em meados de Setembro vindimaram-se a Sauvignon Blan, a Bical e as vinhas velhas onde o blend para espumante é feito na própria vinha de Bical, Maria Gomes e Cercial. Foi nestas vinhas velhas que Carla Neto afirmou ter tido maiores perdas. Nas tintas, Carla Neto destacou a enorme qualidade da Baga e Touriga Nacional para espumante e rosé e, após dia 9 de Outubro, a maturação perfeita das uvas de Merlot, Baga e Touriga Nacional . A principal caracterisitica deste ano atípico foi mesmo a duração do período de vindima que se arrastou por mais de mês e meio, terminando a 10 de Outubro para evitar as chuvas que surgiram súbita e torrencialmente.

Dependendo das castas, as perdas da Lagoa Velha estiveram ao nível médio da região cifrando-se em cerca de 20ª a 30%.

 

Caves São João

Nas Caves São João, as vindimas iniciaram-se a 4 de Setembro, na Quinta do Poço do Lobo, na Pocariça, concelho de Cantanhede.  A primeira uva a ser vindimada foi a Pinot Noir, duma vinha plantada há apenas dois anos, a qual apresentava um teor alcoólico provável de 12,5%. As castas brancas começaram a ser vindimadas a 10 de Setembro e as tintas a 18 Setembro, tendo a vindima desta casa quase secular terminado em meados de Outubro, já após as chuvas.

Segundo Célia Alves, gerente da empresa familiar, a qualidade é boa, não obstante a quantidade ter sido menor, quer nas castas brancas como tintas.

Durante o ciclo vegetativo da vinha houve alguns problemas, designadamente, um Inverno prolongado com temperaturas baixas e pluviosidade que se prolongou até ao Verão, ataques de míldio, oídio severos e consistentes, que obrigaram um maior acompanhamento e rigor nos tratamentos fitossanitários. O escaldão registado no mês de Agosto com temperaturas de 45ºC registadas na Região contribuíram em parte para uma grande perda na produção.

Por estas razões, a vindima arrastou-se para os meses de Setembro e Outubro, o que atendendo às condições climatéricas do mês de Setembro foi muito positivo para a maturação das uvas que estavam bastante atrasadas.

O mês de Setembro foi óptimo, com dias quentes, noites frescas, sem chuva permitindo desta forma, obter as uvas em excelente estado sanitário e de qualidade.

Quanto aos vinhos produzidos, as Caves São estão muito optimistas com os resultados que preveem.