Adega de Cantanhede – O Motor da Bairrada

A fundação da Adega de Cantanhede está intimamente ligada ao lema que esteve na base do congresso organizado pelo Município e que decorreu entre os dias 30 de Novembro e 1 de Dezembro, no Biocant, centro de investigação desta cidade – Juntos Somos Mais Fortes!

Foi em 1954 que cerca de 100 agricultores compreenderam que a sua unidade de esforços valorizaria o seu trabalho e, consequentemente, traria mais valor para a região. O crescimento ao longo destes mais de 60 anos foi exponencial e, hoje, a Adega de Cantanhede conta com mais de 1200 sócios, sendo mais de 500 os agricultores activos e a entregar uva na cooperativa,  correspondendo a uma área de vinha de cerca 1100 hectares, que a tornam, não só  o maior produtor da Bairrada, mas igualmente o seu maior certificador. Ora, só isto demonstra que, mais do que uma preocupação com a quantidade, a Adega aposta sobretudo na qualidade, com resultados óbvios a nível de destaque nacional e internacional, propósito que não é uma prática recente, antes uma filosofia de gestão de recursos que terá cerca de duas décadas.

A ESTRATÉGIA

Mas, no que se distingue hoje esta cooperativa que atravessou estas décadas, não tendo sucumbido como outras cooperativas da região e, pelo contrário, conseguiu afirmar-se num mundo ultra-competitivo dos vinhos? Há várias razões, sendo algumas de decisões de gestão absolutamente estratégicas.

Uma das mais relevantes foi o ter sido a primeira adega cooperativa nacional a fazer espumantes pelo método clássico e  também o primeiro produtor nacional a fazer tetra pak, cobrindo uma faixa do mercado dos vinhos até então descurada. Contudo, foi nos espumantes método clássico que a visão das administrações, em conjunto com a enologia, mais contribui para o sucesso actual, sendo necessário não esquecer que, se há cerca de 10 ou 12 anos a Adega produzia e engarrafava cerca de 250 mil garrafas de espumante, hoje a cifra já ultrapassa mais de 1 milhão de garrafas por ano. O segredo foi de alargar o portfólio de espumantes, que até então era composto apenas por DOC Bairrada Reserva, ou seja, com um mínimo de 12 meses de estágio, que, no caso da adega, apenas saiam para o mercado com um mínimo de 18 meses. Atentos a um mercado que tinha um enorme potencial e perante a possibilidade de lançar para o mercado espumantes mais jovens, de perfil mais comercial e suportados pela denominação IG Beira Atlântico, arriscaram o lançamento de um espumante rosé, mais frutado, e, surpreendentemente, as vendas dispararam num ápice das, na altura, 350 mil garrafas, para um número redondo de 1 milhão de garrafas.

 

O FACTOR HUMANO E A RESPONSABILIDADE SOCIAL

Outro factor que permite explicar o sucesso desta Adega Cooperativa é, sem dúvida, a capacidade humana e as qualidades pessoais daqueles que dão corpo à Administração desta “empresa”. Há, desde logo, uma liderança com um enorme sentido de responsabilidade social perante os seus associados que muito dependem da Adega para terem uma vida digna. Serão sempre 500 as famílias que directamente dela dependem, sendo outras tantas que, indirectamente, também se relacionam comercialmente. Vítor Damião, o actual Presidente da Direcção, desde cedo percebeu que o vigor e sucesso da Adega dependeriam da qualidade da matéria prima e essa qualidade só pode ser pedida quando o agricultor é a peça mais importante da engrenagem da grande máquina. A Direcção da Adega nem hesitou quando Osvaldo Amado saiu da já estrangulada Adega Cooperativa da Mealhada, estabelecendo com ele uma parceria que fez toda a diferença no grande salto qualitativo da Adega. Osvaldo Amado é, não só, um dos mais reputados enólogos mundiais, mas alia essas virtudes com a obsessão pela qualidade da uva. Aquela que lhe permite criar grandes vinhos em várias regiões do país. Foi, sem dúvida, está a equipa que veio equilibrar a balança a favor dos viticultores, valorizando a uva como mais ninguém fazia e salvando os agricultores da voracidade dos “tubarões” que esmagam o preço da matéria-prima e os levam à penúria. Hoje, a uva é paga pelo seu real valor e, sem excepção, o seu preço é aumentado todos os anos, possibilitando maior investimento de tempo e cuidados na vinha, que conduz a vindimas onde a enorme qualidade é uma regra. Percebendo que a sua responsabilidade social se estende também à obrigação de preservação do património inimitável da viticultura da Bairrada, a Adega de Cantanhede tem hoje uma equipa de especialistas na zonagem de vinhas velhas, a sua maioria com mais de uma centena de anos, e, brevemente, vamos conhecer, em estado líquido, os frutos deste trabalho laborioso.

Hoje, a Adega de Cantanhede é algo de incontornável para a região, sabendo-se que, se espirrar, será toda a Bairrada que ficará constipada. Por isso, devemos todos regozijarmo-nos por estar de belíssima saúde e recomendar-se.